Suplementação no Treinamento de Corrida e uma abordagem Biomédica dessa Modalidade
Salve meus queridos Fragmentos de Okazaki! E aí como vocês estão?
Ando meio sumido por aqui, mas a correria do dia a dia as vezes me permite trazer conteúdos bons e importantes para vocês se manterem atualizados com tudo o que temos de novo dentro da tecnologia e dentro da saúde também!
E hoje vamos falar um pouco sobre o esporte da corrida dentro da visão biomédica, além também dos aspectos que envolvem todo o processo de suplementação e como isso pode auxiliar no processo para a busca de melhores desempenhos atléticos e a prevenção de lesões e recomposição de nutrientes e demais moléculas capazes de entregar uma melhor performance a quem adere a essa pratica esportiva.
A corrida, sob a perspectiva biomédica, é muito mais do que um simples exercício físico: trata-se de uma atividade que mobiliza intensamente múltiplos sistemas do organismo humano, provocando uma série de adaptações fisiológicas, metabólicas, neurológicas e psicológicas. Por ser uma prática predominantemente aeróbica, a corrida demanda uma elevada integração entre o sistema cardiovascular, respiratório, musculoesquelético, endócrino e nervoso, além de exercer forte influência sobre os mecanismos imunológicos e emocionais. Essa integração complexa é a base da eficiência do corpo humano diante do esforço prolongado e explica por que a corrida está entre os esportes mais estudados pela biomedicina.
Do ponto de vista cardiorrespiratório, a corrida exige um aumento significativo no fornecimento de oxigênio aos músculos ativos, o que se traduz em maior débito cardíaco, elevação da frequência cardíaca e ampliação do volume de ejeção ventricular. O coração de um corredor treinado adapta-se ao longo do tempo, tornando-se mais eficiente e apresentando bradicardia de repouso devido ao fortalecimento do miocárdio. Simultaneamente, ocorre um aprimoramento da ventilação pulmonar, com aumento do volume corrente e melhor aproveitamento do oxigênio inalado. Esses mecanismos estão diretamente ligados ao aumento do VO₂máx, um indicador fisiológico fundamental para medir a capacidade de resistência e desempenho aeróbico.
O sistema musculoesquelético também desempenha um papel central na prática da corrida. A repetição constante dos movimentos e o impacto rítmico estimulam adaptações estruturais e funcionais. Músculos de predominância oxidativa (fibras tipo I) tornam-se mais eficientes em corridas de longa duração, enquanto fibras glicolíticas (tipo II) são mais ativadas em provas curtas e intensas. Ossos, tendões e ligamentos sofrem processos de remodelação e fortalecimento devido às cargas repetitivas, o que contribui para a saúde óssea e a prevenção de osteopenia. No entanto, essas mesmas cargas, quando excessivas ou mal planejadas, também podem levar a lesões por sobreuso, como fasciite plantar, tendinites e síndrome da banda iliotibial, demonstrando a importância de uma progressão adequada e do fortalecimento muscular complementar.
O metabolismo energético é outro componente essencial dessa visão integrada. Durante a corrida, o corpo mobiliza diferentes vias para gerar ATP, sua principal moeda energética. Em intensidades moderadas e longas, predomina a via aeróbica, com utilização de glicose e ácidos graxos na presença de oxigênio. Já em treinos intensos ou sprints, a via anaeróbica lática é mais acionada, levando à produção de lactato, que pode ser reutilizado como combustível. Com o treinamento sistemático, o organismo aprimora a economia de corrida, utilizando energia de forma mais eficiente e retardando o aparecimento da fadiga. O limiar de lactato, ponto em que a produção excede a capacidade de remoção, é um parâmetro crucial na prescrição e controle de treinos de performance.
No campo endócrino, a corrida desencadeia respostas hormonais importantes para o ajuste do organismo ao esforço físico. Há um aumento na liberação de adrenalina e noradrenalina, que estimulam a frequência cardíaca, mobilizam energia e ampliam o estado de alerta. O cortisol, hormônio relacionado ao estresse fisiológico, eleva-se durante o exercício, mas quando a prática é equilibrada, contribui para adaptações positivas. Hormônios anabólicos, como o GH e a testosterona, também são modulados, auxiliando na recuperação tecidual e na manutenção da massa muscular. Além disso, a sensibilidade à insulina é aprimorada, promovendo melhor controle glicêmico e prevenção de distúrbios metabólicos.
O sistema nervoso central atua de forma determinante tanto no controle motor quanto na percepção de esforço. Com a prática regular, ocorre refinamento neuromuscular, tornando o movimento mais coordenado e econômico. O controle autonômico é ajustado, com predominância parassimpática em repouso e simpática durante o exercício, contribuindo para respostas cardiovasculares mais eficientes. A fadiga central, influenciada pela depleção de neurotransmissores como serotonina e dopamina, desempenha um papel direto no desempenho, destacando a importância do preparo mental. Além disso, mecanismos psicológicos como motivação, foco e percepção subjetiva de esforço estão intimamente ligados à performance em provas longas.
A corrida também exerce impacto relevante sobre o sistema imunológico. Práticas moderadas fortalecem a imunidade, aumentando a vigilância imunológica e a atividade de células de defesa, como as células NK. Entretanto, treinos intensos e sem recuperação adequada podem levar à imunossupressão transitória, aumentando a vulnerabilidade a infecções respiratórias. Essa relação evidencia a importância de equilibrar carga de treino e descanso para manter a integridade imunológica.
No campo psicobiológico, a corrida se destaca por estimular a liberação de endorfinas e endocanabinoides, substâncias associadas ao bem-estar e à redução da percepção de dor. Esse fenômeno, conhecido como “runner’s high”, explica em parte o forte componente emocional e até terapêutico da prática. Além disso, a corrida regular está associada a melhorias no humor, redução de sintomas ansiosos e depressivos e regulação dos padrões de sono, mostrando que seus benefícios vão muito além do físico.
Por fim, a prática da corrida deve ser acompanhada de monitoramento biomédico adequado, principalmente em contextos de alto rendimento. Exames laboratoriais, como hemograma, marcadores de inflamação, cortisol, ferritina e vitamina D, auxiliam no controle do estado fisiológico do atleta. Testes ergoespirométricos e avaliações da variabilidade da frequência cardíaca permitem personalizar treinos e evitar estados de overtraining. Estratégias de nutrição e hidratação, associadas a um bom planejamento de carga e recuperação, completam esse cuidado integrado.
Nesse contexto, a suplementação nutricional bem planejada atua como um coadjuvante no aprimoramento do desempenho físico, na otimização da recuperação muscular e na prevenção de lesões associadas ao estresse oxidativo e ao catabolismo:
1. Carboidratos como principal substrato energético
Os carboidratos representam a principal fonte energética durante exercícios de intensidade moderada a alta. A depleção do glicogênio muscular está diretamente relacionada à fadiga periférica e à redução da performance. A ingestão de carboidratos de rápida absorção, como maltodextrina ou glicose, antes e durante treinos superiores a 60 minutos contribui para a manutenção da glicemia e preservação dos estoques de glicogênio, retardando a instalação da fadiga.
2. Aminoácidos e proteínas na recuperação muscular
O exercício prolongado eleva a taxa de degradação proteica e estimula vias catabólicas, como a ubiquitina-proteassoma. A suplementação com aminoácidos essenciais — especialmente os de cadeia ramificada (BCAAs) — auxilia na síntese proteica muscular via ativação da via mTOR e reduz marcadores de dano muscular, como a creatina quinase (CK). A ingestão proteica adequada no pós-treino também favorece processos de reparo tecidual e adaptação muscular.
3. Creatina e fosfagênio muscular
Embora associada mais com exercícios anaeróbicos, a creatina monohidratada também pode beneficiar corredores de curta e média distância. Ao aumentar a disponibilidade de fosfocreatina, ela melhora a ressíntese de ATP em esforços de alta intensidade e auxilia na manutenção da potência muscular, além de potencializar processos de adaptação ao treinamento intervalado.
4. Micronutrientes e estresse oxidativo
O exercício aeróbico intenso está associado ao aumento da produção de espécies reativas de oxigênio (ERO). Micronutrientes com função antioxidante, como vitamina C, vitamina E e minerais (zinco, selênio e magnésio), desempenham papel importante na modulação do estresse oxidativo e na integridade mitocondrial. O aporte adequado desses nutrientes auxilia na manutenção da homeostase celular e na prevenção de inflamações musculares.
5. Cafeína e mecanismos neurofisiológicos
A cafeína atua como antagonista dos receptores de adenosina no sistema nervoso central, atenuando a percepção de esforço e promovendo maior liberação de catecolaminas. Isso resulta em melhora do desempenho e resistência à fadiga, além de aumentar a mobilização de ácidos graxos, poupando o glicogênio muscular.
Considerações finais
Comentários
Postar um comentário